Para falar com Netjer ninguém precisa necessariamente de um altar ou templo. Isto pode ser feito em qualquer lugar, momento e modo. Muitas pessoas ainda estão presas à idéia de que para entrar em contato com a divindade precisam estar em um templo, e esquecem de que o mundo, por si só, é o maior dos templos.
Andar ao ar livre, contemplar o pôr-do-sol ou observar o céu estrelado podem ser ótimos momentos para falar com Netjer, por exemplo. Pode ser também durante a hora do rush, na fila do banco ou enquanto se espera o ônibus! Escolha uma ocasião, não importa quão estranha possa parecer; o que interessa é que seja o seu momento de falar com Netjer. Basta ser sincero, as palavras virão na hora e proporção certas. Aproveite!
A experiência de falar com Netjer diante de um altar é um encontro direto com a divindade, quando podemos sentir sua presença com mais vigor. Cada templo tem seus ritos próprios. No caso da Religião Ortodoxa Kemética, o ritual é entregue como parte do curso de ingresso gratuito.
O primeiro passo é a construção de seu espaço sagrado. Se tiver um aposento que possa destinar exclusivamente para isso, ótimo. Se não puder, que seja um lugar tranqüilo onde exista pouca chance de lhe perturbarem durante seu ritual. Mantenha este local sempre limpo e arejado, e o altar sempre arrumado.
A etapa inicial do rito é, tal qual os sacerdotes egípcios faziam, a purificação. Ela implica em lavar o corpo, limpando-o das impurezas – incluindo os ouvidos, nariz, boca, umbigo e genitais. Para isso, usa-se uma mistura de água e natrão previamente consagrados em frente ao altar por meio de preces específicas.
Uma versão caseira de natrão pode ser feita misturando-se partes iguais de bicarbonato de sódio e sal numa panela com um pouco de água. Leva-se a panela ao fogo mexendo sempre até levantar a fervura. Em seguida coloca-se a mistura sobre uma assadeira e coloca-se no forno até endurecer (em torno de 30 minutos, dependendo do forno). Depois de pronto, quebre em pedaços pequenos e guarde em um recipiente a prova de ar.
Depois de feita a purificação, deve-se utilizar uma veste branca, limpa, e preferencialmente de linho. Acende-se velas e incenso, e entoam-se novas preces. Em seguida, faz-se libações com água e oferendas. O que vem após fica a gosto e critério da própria pessoa, já que é o momento particular de falar com Netjer. Ao terminar, deve-se fazer uma reverência e despedir-se com todo o respeito, já que Netjer esteve em nossa presença..
Esse é o rito diário. Mas, durante o dia (ou noite) alguém pode ter vontade de acender incenso ou perfumar as estátuas – e isso é completamente normal. Também é normal, a qualquer hora, apresentar oferendas como plumas, enfeites, ou qualquer outra coisa que os Netjeru desejem. Tal qual os antigos egípcios, não se crê na divindade sem senti-la e viver com ela em cada instante. Não importa o método que escolher para aproximar-se de Netjer, desde que você o faça sempre de modo sincero, será igualmente bem recebido.
Como dito anteriormente, os grandes templos não eram de acesso público. Para além dos templos principais, havia em todo o país muitos santuários locais de divindades menores, ou de formas diferentes das mais importantes – tal qual atualmente vemos catedrais católicas convivendo com igrejas menores na cidades em geral As pessoas comuns iam a estes lugares rezar, apresentar oferendas e depositar perguntas para o oráculo. Existiam também centros de peregrinação, como Abidos (que teve seu apogeu no Império Médio) e Saqqara, onde a necrópole dos animais funcionou como um pólo no período ptolomaico.
A classe média e trabalhadora possuía seus próprios pequenos templos ou altares dentro de suas casas. Nestes interagiam com a divindade a qual dedicavam-se, e também tinham um lugar especial dedicado à veneração dos antepassados (akhu). Estes espaços continham diversos objetos religiosos, dentre eles amuletos variados, bustos e pertences dos akhu, podendo haver também numerosos itens especiais consagrados para o parto. Poderíamos encontrar também papiros com curas mágicas para doenças, poções de amor, calendários dos dias de sorte e azar, afastamento do mau-olhado, adivinhação por meio de sonhos, cartas escritas aos akhu, e muito mais.
Seria impossível recriar com perfeição a sociedade egípcia, além disso, eles eram um povo prático – certamente se tivessem conhecido os avanços da modernidade os teriam adotado. O que podemos fazer, sim, é adotar suas observâncias religiosas, liturgias e ritos para praticá-los em nossos tempos com o mesmo sentimento no coração com que eles os realizavam. Tentamos fazer isso do modo mais similar possível que se conheça através dos textos que tem sido resgatados por egiptólogos através dos anos.
Os sacerdotes (ou sacerdotisas) não formavam uma corporação a parte do resto dos funcionários do estado. A religião era oficial e portanto parte integrante do Estado. O rei era responsável pelos cultos, mas delegava suas funções para os sacerdotes. Assim, como substitutos do rei tinham o papel de conservar a integridade da presença divina na terra e de suas manifestações visíveis nos templos.
Os sacerdotes egípcios não eram proselitistas, nem se preocupavam com uma congregação de fiéis como os atuais sacerdotes de diversas religiões. O povo não sabia de nada que ocorria no interior do templo, nem estava a par das diferentes fases das cerimônias e, inclusive, possivelmente ignorariam a que horas aconteciam os ritos.
Não era necessária nenhuma pregação para convencer ou converter os colonizadores às diferentes teogonias. Seus mitos era diferentes dos outros templos porque os egípcios aceitavam a legitimidade da teologia religiosa tradicional, a base de sua religião ¹. O mundo foi criado, ordenado e governado pelos deuses; o faraó era seu intermediário e único sacerdote, mas como não podia estar em todos os lugares ao mesmo tempo, delegava funções a outrem.
No templo (a casa da deiddade), o deus possuía uma imagem em que se encarnava, assim, esta figura devia ser alimentada, vestida e enfeitada diariamente. Diferentemente da crença popular, não se adorava a estátua, mas o que ela significava: a alma do deus ou seu Ka, que tovama o templo como seu lar. Todas estas funções estavam reservadas unicamente aos sacerdotes.
O sacerdote devia se purificar antes de se apresentar ao deus, o que incluía: realizar duas abluções ao longo do dia e duas durante a noite nos lagos sagrados do templo ou, na falta dele, de um tanque. O traje sacerdotal devia permanecer limpo e imaculado e ter sido confeccionado exclusivamente com linho branco, o mais puro possível. Sua cabeça (e todo seu corpo) devia ser mantida raspada e nada deveria ser usado sobre ela. Além disso, devia lavar-se com natrão.
Os sacerdotes podiam se casar e ter filhos. Também tinham ocupações e trabalhos particulares já que só realizavam seus deveres no templo a cada oito meses, durante os quais voltavam à sua vida diária normal. Antes de retomar suas tarefas sacerdotais, porém, deviam abster-se de manter relações sexuais.
O dever dos sacerdotes consistia em realizar uma série de ritos com periodicidade diária para a divindade sob sua responsabilidade. Do despertar à hora de dormir, os sacerdotes egípcios serviam ao deus para que nada perturbasse sua essência divina. Era necessário que estes ritos se realizassem no mais completo isolamento para nada nem ninguém pudesse profanar a estátua divina, assim como a pureza do templo pudesse ser preservada com todo o rigor.
Estas cerimônias se realizavam nas zonas mais ocultas do santuário, na presença de poucos sacerdotes e, em alguns casos especiais, do faraó e pessoas íntimas.O primeiro era o ofício matinal, e talvez o mais solene, dada sua complexidade. Nele renuniam-se as oferendas em bandejas repletas de carne, pão e frutas, ânforas de cerveja e vinho para ser colocadas sobre a mesa disposta na sala do altar. Os sacerdotes de maior staus purificavam os alimentos mediante aspersões e fumigações de incenso, e durante este processo repetiam as fórmulas da consagração.
O Grão-Sacerdote rompia o lacre da porta do santuário, fechada na noite anterior, e pronunciava a invocação do ritual: “Desperta em paz, grande Deus; desperta, e que a paz esteja contigo.” Em seguida, abria a porta do grande tabernáculo e o deus se mostrava diante do novo dia; o oficiante dava um abraço simbólico na estátua e entoava a fórmula da universalidade divina.
Após estas palavras, a estárua do deus era elevada, purificada, revestida com a oferenda de nove estolas e, finalmente, ungida com azeite perfumado. Acendia-se incenso e as oferendas eram apresentadas.
Uma vez que o deus estivesse satisfeito, aspergia-se a estátua e todo o templo com água, e depositava-se cinco grãos de natrão e resina sobre o chão. Depois de toda esta purificação, a estátua voltava a ser fechada no tabernáculo e as portas eram fechadas novamente.
Este mesmo ritual se repetia (mais brevemente) ao meio-dia e ao anoitecer, incluindo o serviço em honra às estátuas de outros deuses, hóspedes do templo, bem como a estátua do faraó. No último rito, a estola da estátua era retirada antes de guardá-la. Os hinos e orações eram lidos, não recitados de memória, já que uma palavra fora do lugar acabaria com o poder mágico do ritual. Diariamente, novos alimentos e bebidas eram servidos ao deus, e as oferendas do dia anterior eram retiradas, podendo ser consumidas pelos sacerdotes que sobreviviam das mesmas.
Notas:
1. Os antigos egípcios não acreditavam em Deus: experimentavam-no e o conheciam. “Crença” é um termo desconhecido em seu vocabulário, e seu desenvolvimento espiritual descansa sobre o conhecimento cujo campo engloba, segundo os textos das pirâmides: a percepção intuitiva, a comunhão com a potência vital, a sensibilidade do coração-consciência, a prática do verbo, a capacidade de alimentar-se de luz, a dimensão simbólica de toda a realidade, o respeito dos Números que regem as formas, a magia que os relaciona entre si e permite modificar os condicionamentos, e por último uma aproximação quase científica dos fenômenos. São os deuses, e não os homens, que são as linhas mestras deste conhecimento sintético graças ao qual se edifica uma visão do real, associando o Além a este mundo.
* "Egipto, Dioses y faraones" N°10, pag. 19 y 20, F y G editores.
[1] "El origen de los dioses", Jacq, Christian, Editorial Martínez Roca.
Bom, se alguém quer ser kemético ortodoxo, o primeiro requisito é tornar-se membro da House of Netjer – o link está ali no menu ao lado.
Depois de se inscrever nos fóruns de discussão e caso seja de seu interesse, a pessoa pode candidatar-se ao curso de iniciantes. Este curso tem duração de 3 meses e é completamente sem custos. Turmas regulares são oferecidas, por isso é preciso ficar de olho na divulgação das datas, já que em teoria são 4 turmas por ano aproximadamente.
Todos aqueles que desejam iniciar seu caminho pelo kemetismo ortodoxo passam exatamente pelo mesmo processo, já que, como dito em outros posts, a House of Netjer não reconhece graus ou iniciações de outras Ordens, keméticas ou não.Todos nascem iguais sob as bênçãos de Ra.
Após o término do curso de iniciantes, há uma cerimônia de encerramento onde todos os concluintes passam a ser remetj. Todos os remetj que desejem podem solicitar a realização do ritual de divinação espiritual, onde a Nisut (AUS), recebe o conhecimento de quem são os pais espirituais de cada um. Caso seja sua vontade, o remetj pode dedicar-se a seus pais espirituais e tornar-se shemsu. O postulante então faz os votos em uma cerimônia e recebe seu nome kemético, que marca o início de sua jornada espiritual como shemsu.
Ah sim, só para lembrar, a House of Netjer está localizada em Chicago, EUA. Por isso, todo o conteúdo do site, bem como os materiais estão em inglês. Mas, se por acaso alguém tiver dificuldades com o idioma, não se preocupe – será encontrada uma solução. E, por favor, sinta-se livre para me contactar caso necessite de alguma ajuda - meu e-mail também está ali, no menu do lado direito. Não é incômodo algum, ok?
E hoje, mais um rodada de esclarecimentos sobre o kemetismo:
O que é o país ocidental/reino do ocidente que tanto se fala no Livro dos Mortos?
R: é o reino de Wesir, o local onde os mortos residem.
Se os praticantes seguem a religião egípcia significa que planejam mumificar-se quando morrerem?
R: De maneira alguma. Para os egípcios, a verdadeira morte era o esquecimento, e as múmias eram conservadas junto com as tumbas construídas, para que os vivos pudessem sempre lembrar-se dos que partiam. Atualmente, se algum seguidor do kemetismo deseja ser mumificado é por uma questão pessoal, e não religiosa.
A religião egípcia é um culto de morte?
R: Não, esta é uma concepção errada. Diferentemente de outras civilizações, o mundo pós-morte egípcio não era um local melhor. A morte sempre foi vista como algo natural e que, como todos os processos, demandava cuidados próprios para que transcorresse da melhor maneira possível para todos.
De onde vêm a informação que vocês utilizam?
R: Muitas fontes: livros de egiptologia, história, científicos, trabalhos de especialistas. Dentre a leitura recomendada estão o Livro dos Mortos e os textos das pirâmides. Aprender o idioma também é interessante e um bom início é através do egípcio médio.
Um livro recomendado para quem está iniciando é “The one and many” de Erik Hornung. Os livros de Christian Jacq também são boas opções. Mas atenção: os livros científicos, não os de ficção. Não se recomendam os livros de parapsicologia, ufológicos, espíritas, new age e afins, já que as concepções não estão de acordo com as crenças do kemetismo.
Todos os keméticos são keméticos ortodoxos?
R: Não. Os praticantes do kemetismo ortodoxo são os que pertencem à House of Netjer.
Mas o que é House of Nejter?
R: House of Netjer ou Per Netjer é o nome do templo físico localizado nos Estados Unidos e pertencente à religião Kemética Ortodoxa.
A religião kemética ortodoxa tem um faraó?
R: Nossa Nisut (AUS) significa para os keméticos algo muito similar ao que o Papa significa para os católicos ou o Dalai Lama para os budistas. Ela é nossa líder espiritual. A ela dedicamos respeito, afeto, reverência e admiração, mas não a adoramos como uma divindade.
Sou sacerdote/isa de ....(inserir divindade). Posso fundar meu próprio templo Kemético Ortodoxo?
R: De jeito algum. Como dito anteriormente, somente os que passaram pelos ritos no Kemetismo Ortodoxo são reconhecidos como pertencentes à fé.
Uma das dificuldades que encontrei ao iniciar minha caminhada pelo Kemetismo Ortodoxo foi compreender a diferença entre Aset e Isis. Com as outras divindades a questão dos nomes greco-romanos era somente uma questão de idioma, porém, não era assim com Aset. Com Aset, a questão era mais profunda, já que envolvia significado.
Ìsis, a deusa dos dez mil nomes realmente possui 10 mil nomes. Ela é uma divindade que abarca conceitos da maior parte das divindades gregas, romanas, egípcias e babilônicas, dentre outras. Foi cultuada em diversas partes do mundo – inclusive com templos espalhados pela europa. O culto obteve popularidade principalmente através dos romanos, e se perpetuou, passando por várias épocas. No século XIX, com a retomada do ocultismo, o culto a Ísis obteve novo destaque e, no século XX a deusa dos dez mil nomes novamente se destacou. Ordens iniciáticas e novos sistemas de magia desenvolveram-se com culto centrado em Ísis, fazendo com que ela se mantivesse como uma das mais reverenciadas deusas da humanidade. Ísis é feiticeira, patrona da maternidade e da dança, deusa da lua, deusa de cura, de fertilidade, “grande mãe de todo egito”, detentora de conhecimentos mágicos e transcendentais, dentre tantos atributos.
Todos estes atributos, no entanto, não se aplicam à Aset. Aset é uma rainha, esposa de Wesir e mãe de Heru-sa-Aset; detentora de poderes mágicos e do nome secreto de Rá, também tem relação com a cura. Porém, não é Aset a deusa da lua – na verdade, a lua não se relaciona com nenhuma divindade feminina no kemetismo. Aset não é a deusa da dança e da fertilidade, mas sim, Hethert; Taweret também é uma deusa de fertilidade. Ser a deusa protetora para uma gravidez difícil e/ou parto de risco, é trabalho de Aset. Em se tratando de cura, o primeiro nome a ser lembrado não é o de Aset, mas sim o de Sekhmet, que é inclusive a deusa patrona dos médicos. Aset é uma deusa criteriosa e exigente em contraste com Isis, que é uma divindade mais inclusiva e “democrática”.
Esta tirinha ilustra de um jeito divertido um pouco das diferenças de Aset e Ísis:
*Tradução: Netjeru: Primas
- Por que todos me confundem com minha prima Greco-Romana Ísis? Nós não temos nada a ver uma com a outra!
Créditos para a Temwa que possui um site onde publica (ótimas!) histórias em quadrinhos sobre o kemetismo, em inglês. Quem quiser conferir mais do seu trabalho, visite: http://netjeru.comicgenesis.com
Continuando, mais uma rodada de perguntas e respostas sobre o kemetismo.
Vocês acreditam na bíblia e nos escritos do êxodo?
R:Não. A bíblia é um livro sagrado de outras religiões,com lendas e mitos para estas religiões e que podem (ou não) terem valor histórico. No que diz respeito ao Kemetismo Ortodoxo, nada do que diz a bíblia é parte de nossa crença e tampouco o consideramos histórico. Nossa religião se baseia em registros históricos, inscrições ou papiros egípcios.
Qual sua opinião sobre o cristianismo?
R:O Kemetismo Ortodoxo não se proclama como a única verdade existente, por isto tanto o cristianismo como outras religiões são vistas como outros caminhos para se chegar à divindade.
Vocês têm relação com o hermetismo?
R:Não, nenhuma.
Set é um demônio. Vocês tem alguma relação com o satanismo?
R:De maneira alguma! Para começar, Set não é o diabo – isto é um conceito advindo de algumas má interpretações históricas e fenômenos políticos/religiosos. Existe, de fato, uma ordem satânica americana chamada Templo de Set, mas não possui ligação com o Kemetismo Ortodoxo.
Vocês praticam a idolatria, adoram estátuas e animais?
R: Não. As estátuas não são adoradas, mas sim o que elas representam. Quanto aos animais, eles são símbolos; metáforas visuais. Jesus é identificado com um cordeiro e nem por isso os cristãos veneram os cordeiros, não é é mesmo?
Vocês tem algo a ver com o paganismo, neo-paganismo, wicca, new age etc? Como se classificam?
R:Pagão, de acordo com o dicionário Aurélio vem do latim paganus, aldeão. Pagãos eram aqueles que praticavam uma religião de fundo agrário e não eram batizados. Atualmente, é aceito o conceito de que o paganismo engloba todas as manifestações que estejam fora do escopo judaico-cristãos e possuam, de alguma forma, ligação com cultos a natureza. Por este ponto de visa, então, estamos dentro do neo-paganismo.
Entretanto, é preciso deixar claro que não temos nada a ver com wicca ou movimentos new age: nos classificamos como uma religião africanista – para quem não lembra, o Egito está na África -e reconstrucionista da antiga religião de Kemet.
Sou sacerdote/sacerdotisa de ..... (deus/deusa egípcio), auto-iniciado/iniciado por intervenção divina ou fiz um curso para ser sacerdote em ......(ordem kemética) e atualmente estou no ...... grau. Serei reconhecido como tal?
R: Não. Somente reconhecemos como sacerdotes aqueles que são nomeados por nossa Nisut (AUS) depois que realizam um treinamento especial.
Já sei que sou filho/a de ….. (deus/deusa egípcio). Preciso passar pelo ritual de divinação kemético?
R: Somente alguém que passou pelo Rito de Divinação Parental com nossa Nisut (AUS) e prestou juramento de servir os deuses é considerado um filho espiritual dest (e/a/es/as) deus (es/as) para o Kemetismo Ortodoxo.
Já tenho/utilizo/recebi um nome egípcio. Meu nome é reconhecido?
R: Não. Se a Nisut(AUS) não tiver entregue este nome a você em uma cerimônia própria, então seu nome não será considerado como nome kemético oficial.
Não sou kemético/a, mas sou Wiccan/praticante de outra religião que utiliza o panteão egípcio. Posso ser kemético/a?
R: As pessoas são livres para praticarem outras religiões, cada uma a seu tempo. Porém, é preciso ter em mente que dentro dos ensinamentos do Kemetismo Ortodoxo não se vai falar sobre outras religiões ou se estimular a mescla de outras religiões/conceitos religiosos com o Kemetismo. São coisas distintas.
Para os antigos egípcios, os nomes possuíam grande importância. Para nós, keméticos dos dias de hoje, também. Este é um dos motivos pelos quais fazemos questão de não usar os nomes das divindades nas formas greco-romanas. A forma egípcia do nome dos deuses também permite uma melhor aproximação com as divindades e uma vivência mais integrada no kemetismo.
Da mesma forma, a utilização de expressões em egípcio dentro do kemetismo ortodoxo permite com que nossa mente e nossos sentidos se intensifiquem e propiciem-nos uma experiência mais intensa, aprofundada da religião. Muito mais do que uma mera formalidade, dizer “Em Hotep” para outro kemético aumenta o sentido de comunidade e identificação com o kemetismo.
O meu nome, Tanakhtsenu, marca minha condição de shemsu no kemetismo ortodoxo. Este é o nome que a Nisut (AUS), após fazer divinações e receber orientações dos meus pais espirituais, me concedeu em uma cerimônia especial. Como todo nome, ele possui um significado ligado a meus pais espirituais e também a mim, é claro: “Aquela que pertence aos dois fortes/vitoriosos”. Os “dois”, no caso, são Khepera e Set, meus pais espirituais.
Mais importante, porém, do que usar os nomes em egípcio é saber seus significados. De nada adianta querer “falar bonito” e, por pura vaidade, fazer mau uso de uma determinada expressão e correr o risco de ofender uma divindade, por exemplo. Na dúvida, é muito mais válido usar nosso próprio idioma e, assim, evitar riscos desnecessários.
Neste espaço, sempre que houver referência a nomes de divindades, locais ou pessoas em egípcio, a grafia utilizada será que mais se aproxima da forma egípcia original e que é atualmente acieta dentro do Kemetismo Ortodoxo. Não será utilizada a grafia greco-romana ou a popularizada por egiptologistas como Budge.
Alguns exemplos:
Aset no lugar de Ísis* Wesir no lugar de Osíris ou Ausar Djehuty no lugar de Thoth Yinepu no lugar de Anúbis ou Anpu Nebhet no lugar de Néftis Hethert no lugar de Háthor Heru** no lugar de Hórus
* Para muitos, Ísis e Aset são divindades diferentes, já que a primeira abarca uma série de conceitos e características não aplicáveis à segunda, devido principalmente a influência greco-romana.
** É importante ter em mente que existem muitos Herus: Heru-wer, Heru-sa-Aset, Heru-pa-khered, Heru-akhety, Heru-behdety, dentre outros.
Hoje continuo com a segunda e última parte do texto da Siath. Senebty!
A religião do povo era uma religião agrária com tendência a adorar a Deusa-mãe. Não teve sacerdotes nem templos – cada pessoa realizava os cultos no altar de sua casa, pedindo por proteção de deuses como Renenutet (para boa colheita), Taweret (para um bom parto), Bes (para harmonia do lar) etc. Em certas ocasiões, as pessoas podiam recorrer a deuses específicos: Aset para crianças pequenas e mulheres grávidas; Serqet para proteção contra escorpiões; Bast para guardar a família; Meret-Seger para ser juíza em disputas, por exemplo.
As pessoas contavam também com uma divindade patrona de acordo com o trabalho que exerciam. Estes são alguns exemplos: os escribas eram protegidos por Djehuty ou Seshat; os artesãos, por Ptah; músicos e bailarinas eram protegidos por Hethert; os médicos adoravam a Sekhmet e trabalhavam em seu templo; os soldados tinham predileção pelo deus guerreiro Set.
Cada egípcio possuía, ainda, uma divindade particular que guiava desde o dia de seu nascimento. Muitas pessoas tinham esta divindade incluída em seu nome – os prediletos de Amun chamavam-se Ameny, de Set eram Sety, de Heru eram Hory. Os reis Tutmósidas (Djehutymose em egípcio) eram prediletos de Djehuty, os Ramessidas eram do deus Ra; o nome do faraó Horemheb quer dizer “Heru está em festa” e Tut-ankh-Amónem egípcio significa “Símbolo vivo de Amun”. Muitos egípcios tinham nomes de deuses e reverenciavam-nos porque eram seus guias pessoais.
Dentro da religião egípcia ainda podemos observar dois cultos: o solar, encabeçado por Ra e o agrário do deus Wesir. Durante o Reino Novo, ambas deidades foram fundidas em uma, Wesir-Ra. Outro aspecto a se destacar é que cada um dos 42 nomos (estados) que integravam Kemet possuía um deus principal e festas dedicadas a esta divindade. Em Tebas, cujo patrono é Amun, os moradores rendiam culto a tríade formada por Amun, Mut e Khonsu. Assim, além de todas as divindades mencionadas, cada egípcio ainda sentia especial predileção pelo deus de sua cidade natal.
Hoje vou postar a primeira parte de um texto elaborado pela SiatHethert, que é uma das novas colaboradoras do blog. Senebty!
Breve introdução à antiga religião egípcia
por SiatHethert, traduzido e adaptado por Tanakhtsenu
O mundo antigo desconhecia o termo “religião” tal qual o compreendemos hoje. Tampouco o ateísmo e seu questionamento acerca da existência de um criador existiam. Este criador existia e era muito amplo para poder ser conhecido em totalidade e completamente oculto para ser compreendido.
Os antigos teólogos egípcios compreendiam que o criador estava só no princípio da existência e posteriormente desdobrara-se e criara outros seres que em essência são partes de si mesmo – aspectos diferentes de um mesmo ser. Ou seja, cada aspecto é uma deidade que é ao mesmo tempo parte do Uno (Netjer) e um deus em si mesmo, com personalidade e características específicas. Os aspectos são como uma célula do corpo de Netjer, que se associa com outras e funciona sem perder sua individualidade.
Em Kemet (Egito) existia a religião estatal e a religião do povo – e ambos os pontos de vista eram distintos. A religião do Estado era a do clero, cujo líder era o rei (o primeiro sacerdote de Kemet) e era praticada nos templos. Os deuses venerados neste culto geralmente eram os que representavam a monarquia (em especial os solares) e tinham (ou não) preferência de acordo com a política do momento. É uma religião culta, dedicada a manter a ordem cósmica e o equilíbrio do poder egípcio.
Bawy foi o regente do Ano Kemético 15 (08/2007 a 08/2008) e nada mais é do que Heru-wer (Hórus) e Set sincretizados - ou seja, uma "mistura" de dois deuses. É importante ter em mente que Bawy é uma outra divindade, e não um pouco de Set com Heru-wer.
A imagem de Bawy é geralmente a de um homen com duas cabeças - uma de Heru-wer e outra de Set.
Bawy representa força - não o tipo de força que destrói, mas sim aquela força que permite que, apesar de todo sofrimento e dano sofridos, se resista. A força que elimina barreiras desnecessárias e vai direto ao ponto central de uma questão.
Em hotep!
Hoje vou aproveitar para esclarecer algumas dúvidas a respeito do Kemetismo Ortodoxo:
As pirâmides e a esfinge na verdade são naves espaciais (ovnis)?
R: bem, se alguém acredita nos ovnis ou não, isto é uma opinião pessoal. Mas este conceito não se aplica em nossas crenças.
Os deuses egípcios eram extraterrestres?
R: não, vide resposta anterior.
Eram os deuses astronautas?
R:não...isto é só o título de um livro...
Se os deuses não eram extraterrestres ou astronautas, eles eram atlantes?
R:não, a concepção de atlântida não se aplica ao nosso ponto de vista.
Se os deuses não eram extraterrestres, astronautas ou atlantes, então os egípcios eram descendentes dos atlantes?
R: não temos a nada a ver com os atlantes...
As pirâmides e as esfinge são anteriores à civilização egípcia e foram construídas por seres superiores?
R: absolutamente não - a esfinge é uma representação de Heru-em-Akhet (Hórus).
O tarô foi inventado por Djehuty (Thoth) e tem origem em um livro chamado Livro de Thoth?
R:existem muitas teorias a respeito da origem do tarô, que até o momento é incerta. É verdade que os egípcios gostavam de oráculos, mas não há provas concretas que o tarô teve origem no Egito. O mago inglês Aleister Crowley tem um livro chamado Livro de Thoth, bem como um tarô.
A maçonaria provém do Egito?Qual a relação com o kemetismo?
R: não mantemos relação com a maçonaria e como não sou maçom, não tenho conhecimento sobre o assunto.
Hoje vou falar sobre Ma’at, este que é o termo mais importante dentro da filosofia e religião kemética. Em egípcio antigo, Ma'at significa literalmente "verdade". Ma’at era a ordem, o equilíbrio, a verdade e justiça personificadas; era harmonia – como as coisas deveriam ser. Sem Ma’at, o universo retornaria ao caos já que graças a ela, ele funciona de um modo racional e ordenado.
Ao mesmo tempo, ela também é uma Netjeret (deusa) representada com uma pena de avestruz na cabeça. Esta é a pena colocada em um dos lados da balança usada para a pesagem do coração do morto no julgamento além-vida.
Concomitantemente – e o que talvez seja o mais complicado de entender – Ma’at não é boa ou má: Ma’at simplesmente é.
Ela está muito além da ética, é completamente neutra. É por isso que durante o julgamento no além, Ma’at é representada pela balança que pesa o coração do falecido: ela não escolhe partes, não tem favoritos, simplesmente pesa o que é depositado nos pratos.
Ma’at é um processo que se põe em marcha a partir de ações. Processo que reage ao atuar humano e move as peças de modo que o equilíbro seja reestabelecido sempre. Toda ação tem uma reação, e ela é consequência de Ma’at.
Os que praticam a religião kemética devem viver em e por Ma’at, o que representa um grande desafio já que implica sermos responsáveis pelas ações que realizamos diariamente.
O termo Kemetismo deriva de Kemet ou Kmt (terra negra), nome dado ao Antigo Egito quando os faraós governavam as duas terras do Nilo. Portanto, a religião kemética é nada mais nada menos, do que a praticada na antiguidade por este povo.
A religião do Egito, diversamente do que se acredita, era monólatra. Isto é, possui uma estrutura de muitos deuses que derivam de uma grande fonte divina: um e muitos, muitos que são um. Netjer ("poder divino" no antigo idioma), também chamado de Tem, Temu ou Atum foi o primeiro deus. Ele/ela gerou os outros deuses (Netjeru) bem como o mundo como o conhecemos. Estes Netjeru são deuses independentes que, por sua vez reunidos formam uma entidade única, Netjer. Os "Nomes" de Netjer ( Rá, Ísis, Osíris, Anúbis etc) são suas diferentes manifestações.
Esta religião, mais além do paganismo, pertence ao tradicionalismo africano. Não é uma nova religião, uma interpretação new Age, uma mistura de wicca com o panteão egípcio, tampouco uma improvisação.
O Kemetismo é a prática da religião antiga tal e qual era no passado; por isso seu exercício requer um compromisso de preservação da herança cultural. É a continuação do que os antigos egípcios faziam e acreditavam. Não é aplicar parte do antigo ao novo, mas sim utilizar o antigo na modernidade, sem modificá-lo. Desta forma, precisa-se não somente de fé, mas de um grande esforço e tempo dedicados a ler e aprender.
Atualmente existem diferentes grupos keméticos, mas o primeiro (e reconhecido legalmente) foi o da religião Kemética Ortodoxa. Esta foi criada no final dos anos 80 por Sua Santidade, Nisut Hekatawy I (AUS), fundadora da House of Netjer, nos EUA. A House of Netjer foi o primeiro templo físico existente fora do Egito em milhares de anos. O Kemetismo Ortodoxo é também o único a possuir uma líder espiritual como os antigos egípcios tinham a figura do faraó.
O Kemetismo Ortodoxo, semelhante ao praticado pelos antigos, baseia-se em cinco pilares:
Ma’at: o termo egípcio de justiça, verdade, ordem, equilíbrio;
Netjer: a divindade e todos os seus Nomes (Netjeru);
Akhu: os ancestrais;
Nisut (AUS): rei e líder espiritual, a ligação entre Netjer e os homens;
Tanakhtsenu é meu nome kemético: sou uma Shemsu brasileira da House of Netjer, e tenho por objetivo divulgar melhor o Kemetismo Ortodoxo, uma religião reconstrucionista que tem por base reavivar as práticas religiosas do Antigo Egito para os dias atuais.
O Kemetismo Ortodoxo (reconstrucionismo egípcio) é para todos os interessados em praticar a antiga religião egípcia de forma a respeitar o passado se adaptando ao presente.